Enquanto a Europa buscava isolamento térmico em paredes espessas, o Recife da década de 1920 gestava uma revolução silenciosa feita de vazios. A gênese do que conhecemos como cobogó não reside apenas na estética, mas no pragmatismo de três mentes: Amadeu Oliveira Coimbra, Ernest August Boeckmann e Antônio de Góis. Ao unirem as sílabas de seus sobrenomes, os engenheiros batizaram uma peça que viria a se tornar o “pulmão” das edificações brasileiras, permitindo que a luz e o vento circulassem sem comprometer a privacidade ou a estrutura.

A peça transcendeu sua origem utilitária em Pernambuco para se tornar uma declaração de princípios na arquitetura moderna. O ponto de virada ocorreu em 1934, com a construção da icônica Caixa d’Água de Olinda, onde o elemento vazado provou sua eficácia monumental. Não demorou para que o movimento modernista, liderado por nomes como Lúcio Costa e Oscar Niemeyer, percebesse o potencial plástico desse recurso. O cobogó deixou de ser apenas um anteparo solar para se transformar em um componente de identidade visual, moldando fachadas que jogam com luz e sombra de forma quase rítmica.

Mesmo prestes a completar um centenário, o dispositivo mantém uma contemporaneidade rara. Em um cenário global que exige soluções de baixo impacto energético e ventilação natural, o cobogó ressurge não como uma peça de museu, mas como uma ferramenta técnica indispensável. Ele sintetiza a capacidade do design brasileiro em responder a desafios climáticos com sofisticação geométrica, provando que a verdadeira inovação muitas vezes reside naquilo que deixamos passar através da matéria.




